Monday, November 19, 2007




Esperou por ele junto às arcadas da ponte. O fim de tarde estava gélido mas o sol reflectido nas pedras e na água aquecia até a alma mais congelada. Parecia que tinham passado oceanos de tempo desde a última vez que se tinham visto. E no entanto o tempo tinha voado de encontro ao dia marcado. Os longos cabelos negros esvoaçavam na brisa, como que enamorados pelos silfos brincalhões. Tinha os olhos brilhantes. Tinha as pestanas molhadas. Tinha estado a chorar. Não sabia porque. Apenas sentia uma mão quase que a sufocá-la. Um prenúncio. "Sabes quando amas tanto alguém que parece que o coração é pequeno demais e vai rebentar? É assim que me sinto" disse ele pegando nas mãos dela, meses antes, naquele mesmo local, sob a luz enebriante da lua cheia mais baixa de todos os tempos. "Sob a luz da lua que reflecte o sol sabes que te vou amar pela eternidade. Mesmo que o corpo não seja mais que um monte de cinzas, mesmo que se tenha fundido na grande mãe. Vou amar-te, como hoje, por todos os dias das minhas existências" disse ela passando a mão alva pelos loiros cabelos dele. O sol foi-se pondo, desaparecendo nos céus, tingido a abóboda celestial de cores suavemente negras, como se a própria morte se elevasse triunfante para mais uma noite de resgate. E ela foi esperando, junto às arcadas da ponte. Revia mentalmente todos os momentos que haviam passado juntos. E o frio nocturno foi-se espalhando, foi-se entranhando no corpo, enregelando os ossos. E ela foi esperando. Passaram-se horas. Passaram-se dias. Na noite de natal, a caminho da missa do galo, um casal desce até às arcadas da ponte. A mulher solta um grito de terror ao vislumbrar o corpo branco macilento caído na relva. O homem envolveu-a num terno abraço e afastou-a do local. Ao chegarem à ponte, a mulher volta a cabeça num derradeiro olhar e murmura "Coitada...". O homem, ajeitando os cabelos loiros, diz com olhar distante "Não te preocupes querida, devia ser alguma tola inútil que acreditou em promessas de amor numa noite de luar".




[ algo antigo para recordar :) ]



Lau*

Monday, November 12, 2007

Inverno Vermelho

Na noite em que a lua não nasceu eu recusei-me a olhar o céu e escondi-me sob os lençois. Tive medo. Lá fora... Lá fora o céu era de um vermelho sangue como se ela chorasse e as searas de trigo estavam cobertas de neve. Um Inverno Vermelho, uma Noite sem Lua e cristais que reluziam em tons que corriam desde o branco puro ao carmesim.

Na noite em que a lua não nasceu saí à rua e olhei o céu, como era bonito aquele espectáculo de fogo de artíficio ao não luar, aquela salva de explosões de luz e de noite, de noite e de mim. Fechei os olhos na noite em que a lua não nasceu, só para sentir o vento que soprava desejando o zero absoluto.

Na noite em que a lua não nasceu não voltei a abrir os olhos. A lua procurou-me no dia seguinte, em vão, pelo carmesim prateado da neve, e o vento chamou o meu nome. As explosões de luz continuam, já chegaram, já partiram. Agora despertam corações e fecham os olhos a quem espera a lua que para eles não nasceu neste dia. Para nós é a noite em que a lua não nasceu, para os outros é apenas mais uma Guerra...

by Eric
13.11.2007


Saturday, November 10, 2007

Carry on, carry on...

[...]

Too late, my time has come,
Sends shivers down my spine
Body's aching all the time,
Goodbye everybody, Ive got to go
Gotta leave you all behind and face the truth
Mama ooo
I dont want to die,
I sometimes wish I'd never been born at all

[...]

in Queen - Bohemian Rhapsody



"If Im not back again this time tomorrow
Carry on,carry on,as if nothing really matters"

Mas nem sempre é assim tão fácil...


Eric

Monday, November 5, 2007

Será que alguém ainda se lembra?

A queda foi terrivel, e a força interior que não existia apenas se exprimiu em dor. Ela retorceu-se fortemente e gritou a alguém que passava na rua: "Que foi nunca viste", limpou as asas e olhou o céu...
"É triste que um anjo não saiba voar.....", ele aproximou-se e limpou-lhe a tinta negra que lhe cobria ao olhar e se misturava com lágrimas e ela nada disse... O silêncio que os cobria era tanto, mais ninguém viu a cena, embora uma infinidade de pequenas almas deambulasse ainda na sua vida fútil quando tudo isto aconteceu, tão perto da sua vista, tão longe do seu coração, e o silêncio que afinal era apenas quebrado pelo caminhar apressado da hora de ponta foi quebrado pelo continuar da frase deixada a meio ".......mas mais triste é não ter quem lhe ensine"... Pela primeira vez os seus olhos mostravam um pouco do que é ser anjo e ela sorriu com eles....e no momento seguinte largou da sua mão e fugiu, e saltou, saltou e não voou...


by Eric - 25.05.2005




Um texto de um dos meus antigos photoblogs... será que ainda alguém se lembra? Conheciam-me como Aoshi Shinomori, agora sou só mais um desconhecido...